A EXPOSIÇÃO NO PARQUE DAS RUÍNAS












O Morrinho - A estética e a ética do precário

O Morrinho começou a ser feito em 1998 por Nelcirlan. Aos 14 anos, recém chegado de uma cidade fluminense, ele ficou impressionado com a vastidão das favelas vistas do alto do morro, e resolveu trazer para perto de si aquela visão. Com ajuda do irmão Maiquel, criou vários conjuntos de casas que o tempo destruiu, até descobrir que usando tijolos, seu trabalho resistia. Ao perder o caráter efêmero, seu brinquedo transformou-se em construção, atraiu outros garotos como Rodrigo, Naldão, Júnior, Paulo Vítor, Luciano , Ranieri, e tornou-se parte da comunidade. O Morrinho, ocupa hoje uma área de 80 metros quadrados na favela do Pereirão, reconstituindo, com riqueza de detalhes, locais como: quadras de baile funk, o Bope, bocas de fumo, vielas, escadarias, ruas, biroscas, praças, delegacias ...

O conjunto tem um impacto visual e uma aura de encantamento indescritíveis. As cores são fortes e marcantes, as construções se distribuem em ritmos vertiginosos, a vegetação é integrada com a sabedoria de bonsais. Miniaturas de veículos e motocicletas preenchem as ruas. Nos interiores das residências: camas, penteadeiras, armários, árvores de natal, mostram a imaginação criadora destes jovens que traçam ruas, constróem muros de arrimo para conter encostas, distribuem postes de luz e pavimentam estreitas calçadas. O seu universo plástico revela a plenitude da estética da favela, tantas vezes retratada por artistas, fotógrafos e cineastas, brasileiros e estrangeiros.

Um segundo olhar mostra o jogo sem fim que é O Morrinho, habitado por uma "população" de bonecos feitos de blocos de Lego. Os enredos das brincadeiras são identificados com universo dos morros cariocas e respeitam uma cronologia e regras próprias. Cada nova brincadeira começa exatamente onde havia parado a anterior. Um boneco em fuga não pode pular de três andares. Um boneco não pode correr mais que um carro ou sair voando pelos ares. Super-heróis não moram no Morrinho - mas bandidos sim. A exclusão criou uma sociedade paralela na qual as regras são extremamente rígidas, há lugar para a imaginação, mas não para o sonho. São códigos muito similares aos códigos da prisão. A face da violência nos espreita de dentro daquele microuniverso afetivo e encantado.A ética da favela é muito mais difícil de compreender do que sua estética.

O Morrinho, tanto por seu tamanho quanto por sua singularidade, chamou a atenção dos moradores da comunidade e arredores. Uma equipe de filmagem subiu o morro para registrar a "maquete" mas o documentário transformou-se numa experiência de envolvimento e troca mútuas. No processo uma câmera digital foi entregue aos meninos para que eles mesmos registrassem os seus jogos. Os resultados foram surpreendentes e surgiu a idéia de criar a TV Morrinho. O projeto significa a união do grupo de meninos num trabalho contínuo acompanhado por Fábio Gavião, Marcão Oliveira e Francisco Franca - os documentaristas que chegaram e nunca mais foram embora - e que hoje buscam apoio para realizar este processo de integração dos meninos do Morrinho à sociedade produtiva.

Foi muito questionada pelo grupo que tem tentado desenvolver este projeto a validade de se recriar o Morrinho fora de seu contexto, mas esta exposição, apresentada no Parque das ruínas, no conjunto das mostras do MIRA, dá sem dúvida a oportunidade de colocar em foco o trabalho destes meninos, e de chamar a atenção para as enormes possibilidades de se mudar a nossa sociedade através da energia transformadora da arte.

Agradecemos à RioArte o apoio à realização deste evento, e ficamos aguardando novos parceiros!